Saúde do coração na Dieta Cetogênica: exames, problemas e soluções

Colesterol na Dieta Cetogênica é uma questão que mobiliza pesquisadores há algumas décadas. Mais ainda, a saúde do coração como um todo. Afinal, nem tudo é LDL, muito menos LDL-C.

Neste conteúdo especial, veremos o que você deve observar para entender se há risco cardíaco real e como pode alterar sua dieta para melhorar os marcadores rapidamente: exames, suplementos e alimentos que devem entrar ou sair da sua Cetogênica. Ainda, questões que são chave na ponte entre saúde cardíaca e mental.

Assista ao trecho desta live exclusiva para membros do Revolução Keto acima e veja o resumo abaixo.

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Saúde do coração na Dieta Cetogênica: exames, problemas e soluções

Primeira coisa a ser dita: a Dieta Cetogênica aumenta HDL e reduz triglicerídeos. Este é o padrão de ouro na análise de risco cardíaco em Low Carb. O LDL não entra na equação.

A maioria dos meus clientes mantém o LDL dentro das estimativas padrão. Outra boa parte aumenta um pouco (algo como 30%), normal na Low Carb. Dentre mais de duas centenas de pessoas atendidas ao longo dos anos, tive algo como três ou quatro clientes que responderam como eu: LDL duplica, triplica, quadruplica. São os chamados hiper-responsivos. Recebo muitas mensagens de pessoas que passam por isso nas mídias sociais.

Fica complicado dizer a elas que o LDL não importa quando surgem com um LDL de 500 em um país em que é quase impossível fazer os exames adequados para avaliar o risco do LDL.

Mas, é bom lembrar que sim, os estudos mostram que o LDL perigoso, pequeno (small dense particles) é reduzido em Cetogênica. Contudo, são estudos e você pode fazer parte da minoria na pesquisa.

Então, vamos avaliar quais são os seus riscos individuais.

Avaliação inicial de risco cardíaco na cetose

  • Genética: variação nos genes APOE e MTHFR. Histórico de hipercolesteronomia familiar. Histórico cardíaco familiar.
  • Há quanto tempo você está na Cetogênica? Está se adaptando e ainda não utiliza gordura como combustível? Quais gorduras está utilizando? Estudos de Eric Kossooff mostram que alterações no painel lipídico podem durar até dois anos de dieta (é temporário).
  • Está emagrecendo? Não meça o colesterol se está emagrecendo. Aguarde três meses depois da perda de peso para medir. Bons estudos de colesterol, controlados, enfatizam a estabilização do peso para começar as medições.

Exames cardíacos na Dieta Cetogênica

  • Atenção: no roteiro do vídeo, esqueci de colocar a Lipoproteína (a), Lp(a). Acrescento-a aqui. A Lipoproteína (a) é vista por alguns médicos como a principal causa do infarto, sendo majoritariamente um fator genético que afeta até 30% da população. Suplementos, medicações e alterações na dieta têm sido estudados para reverter o quadro (statina, raloxifeno, estrogênio, niacina, fenofibrato), sem grandes consensos da comunidade científica.

    Se a sua Lp(a) estiver elevada, as recomendações são as mais fundamentais para a saúde humana: coma seus vegetais, reduza sua gordura saturada, exercite-se e, acima de tudo, reduza seu estresse. Saiba mais sobre a Lp(a) com Peter Attia e, claro, Thomas Dayspring. Ainda, Siobhan Huggins, pesquisadora parceira de Dave Feldman, discute a questão em vídeo, apontando outros contextos que não genéticos para a elevação da Lp(a) e outros marcadores que precisariam estar elevados para que a Lp(a) fosse de fato perigosa. Ok, vejamos outros exames.

  • Estresse oxidativo: dialdeído malônico ou malondialdeído – é o melhor exame pra verificar deficiência de B12 e quadros inflamatórios.
  • LDL-OX e LDL-PX (LDL oxidado e perioxidado): ideais, mas não encontrei laboratório no Brasil que realize este exame.
  • LDL-P (NMR Lipo Profile – medição das partículas de LDL, VLDL, HDL): na Virta Health, é o exame que utilizam. Aqui no Brasil, apenas Albert Einstein (SP) e Richet (RJ) fazem o NMR. Caso a pessoa tenha alto LDL-P, a Virta indica que se faça o escore de cálcio, que não considero a chave final da questão (falo mais abaixo sobre isso). O que importa é, se a pessoa tiver fatores de risco (drogas, cigarro, álcool, sedentarismo, histórico familiar, problemas cardiovasculares prévios), seria interessante sair da dieta ou ponderar sobre formas de reduzir os números.
  • Proteína C-Reativa: caso alta, fator agravante no risco das placas se soltarem das artérias, levando ao avc ou infarto. Possível deficiência de Vitamina C ou D. Acima de tudo, estresse psicológico/fisiológico (incluindo exercícios excessivos, como nos mostra Dave Feldman).
  • Relação entre triglicerídeos e HDL (divida triglicerídeos por HDL). Resultado ideal: abaixo de 1,8. Problemas: acima de 4.
  • Apolipoproteínas A1 e B, incluído no chamado VAP Teste (Teste de Autoperfil Vertical): também indicado pela Virta. O APOB ajuda a saber o número de partículas de LDL. Se o LDL for alto, mas o APOB estiver normal, possivelmente não há problema algum.
  • Colesterol Não-HDL: é um bom marcador. Também não determina as partículas de LDP, mas é superior ao LDL-C (padrão dos exames) para avaliar risco cardíaco.
  • HDL, Colesterol Total, Triglicerídeos e VLDL (very low density lipoprotein). Acima de tudo, buscamos triglicerídeos e VLDL baixos, HDL alto.
  • Homocisteína: um marcador fundamental na Cetogênica e da Carnívora. Elevada, acusa deficiência de micronutrientes fundamentais na proteção cardíaca e cerebral (especialmente, B6, B12 e folato – a chave da saúde mental). Também, acusa danos arteriais e formação de placas.
  • Mutação gene metilenotratrahidrofolato redutase (MTHFR): não falarei muito sobre isso ainda, mas é meu foco no momento. Atinge desordens mentais e cardiovasculares ao mesmo tempo. Ligada à deficiência de folato (B9), B6 e B12. Pela deficiência de folato, leva a altos níveis de homocisteína. A redução da atividade do MTHFR está ligada ao autismo, esquizofrenia, bipolaridade, depressão e TDAH. Possivelmente, de 15 a 40% da população possui mutação no gene, variando da etnia.
  • Genotipagem da Apolipoproteína E (APOE): alelos APOE2 e APOE4 possuem riscos cardiovasculares. APOE2 ligado ao mau LDL (partículas pequenas) e APOE4 ligado à dislipidemia e a doenças neurodegenerativas, como Alzheimer.

Tratando problemas cardíacos na Cetogênica

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Como reduzir LDL, Triglicerídeos e Homocisteína, elevando HDL?

  • Gorduras ideais para inverter o quadro: coco (preferencialmente, MCT), oliva, gergelim, abacate, linhaça, óleo de peixe.
  • Respeitar a lei da proteína animal moderada, optando por fontes menos gordurosas, mas mantendo as gorduras acima mencionadas.
  • Para elevar HDL, reduzir carboidratos. Ideal: menos de 35% de carbs na dieta. Alimentos: óleo de coco, ômega 3, linhaça, chia, oliva, nuts, abacate, sardinhas.
  • Reduzir LDL: farelo de aveia, farinha de linhaça, psyllium, chá verde, alimentos ricos em B3, alho (mixed results). Folhas verdes (especialmente, couve e espinafre). Berries. Nozes e amêndoas. Whey rico em lactoferrina ou suplemento de lactoferrina (especialmente, obesos, diabéticos e problemas imunológicos).
  • Reduzir triglicerídeos: reduzir laticínios, tirar manteiga, banha, carnes excessivamente gordas.
  • Para reduzir LDL oxidado, o perigoso, adicionar antioxidantes: azeite de oliva com a menor acidez possível. Coenzima q10 (de 100mg a 200mg dia), alimentos ricos em betacaroteno, selênio. Vitamina E (400mg ao dia) e Vitamina C (300 ou 400mg 2x dia), Resveratrol (250mg ao dia), epigalocatequina-galato (EGCG – chá verde – ativa receptores de LDL) dose máxima de 338mg ao dia, junto com refeições. Em casos de problemas de fígado e rins, apenas tomar 1 xícara de chá verde diariamente.
  • Fibras: duas colheres de chá de psyllium ao dia, folhas verde escuras, farelo de aveia, fibra de maracujá, linhaça, berries e frutas cítricas cetogênicas.
  • Vinagre de maçã: uma colher de sopa antes do almoço e do jantar.
  • Vitamina C: 300 ou 400mg 2x ao dia.
  • Limão: 1 limão pequeno diário (vitamina C e digestão das gorduras). Especialmente se tu usa metformina, usar vitamina C com metformina potencializa o efeito do remédio. Toma o suco de limão junto com as refeições e colocar alho na comida. Limão com alho tem efeito potencializado sobre o painel lipídico.
  • Prebióticos e probióticos: colesterol pode estar nas alturas por problemas na microbiota. Disbiose e dislipidemia. Estatina está ligada à redução de disbiose. Elevaremos fibras solúveis, fermentados.

Sugestão pessoal: shake com o whey isolado com lactoferrina, psyllium, farelo de aveia, iogurte de coco probiogurte da pura vida ou algumas colheres de iogurte integral dessorado, banana verde (amido resistente), abacate, semente de abóbora, nozes etc.

Caso da Homocisteína

Quando há alta homocisteína, usualmente se pensa no precursor, a metionina. Contudo, estudos não encontraram relação direta entre consumo de metionina e elevação homocisteína, visto que dietas veganas apresentam risco para este marcador e não consomem produtos animais.

A relação encontrada foi sim de deficiência de micronutrientes. O que importa é que as vitaminas B6, B12 e folato são chave neste processo. E é aqui que o corpo pode estar ruim, gerando excesso de homocisteína. Tomar todas as vitaminas B nas formas metiladas (devido à possível mutação do MTHFR).

Colina também é chave aqui: colina está na gema do ovo.

Outros nutrientes importantes para reduzir homocisteína

  • Trimetilglicina (betaína): 1g
  • Vitaminas B6, B12 e folato nas formas metiladas
  • Caldo de ossos e colágeno diariamente

Outros suplementos:

  • K2 –  o Ativador X de Weston Price – de 180 a 360mcg. Especialmente para quem toma statinas (statina inibe síntese da K2).
  • Vitamina D3 – meta: 60ng/ml – suplementação de 1.000 a 2.000 ui ao dia. Super dose não gera benefícios cardíacos.

Escore de cálcio

Você pega um exame como o meu: seu coração está cheio de cálcio (para quem não me conhece, venho do submundo das adicções químicas pesadas, anorexia e bulimia, importante mencionar).

Ok, mas são muitas pequenas partículas ou é uma grande placa de cálcio? Uma grande placa não gera tanta elevação de risco cardíaco, porque é mais estável. As pequenas placas são sim um problema.

Ainda não há um exame que identifique se seu cálcio é elevado devido a muitas pequenas placas ou uma grande placa. Então, é um exame que gera muito medo, mas cujo resultado não dá segurança.

Por que meu LDL está imenso se já elevo fibras e opto por oliva e MCT?

  • Colesterol elevado pode estar intrinsecamente ligado à cetose. O corpo precisa da acetilcoenzima A (Acetil-CoA) para fabricar corpos cetônicos. Este composto é precursor do colesterol. Mais Acetil-CoA no corpo, mais colesterol. É uma hipótese sendo investigada.
  • Baixa insulina reduz atividade dos receptores de LDL. Mais LDL circulando pelo corpo.

As hipóteses da insulina e da Acetil-CoA me interessam muito, porque significariam que, ao menos para algumas pessoas, a elevação de colesterol é intrínseca ao processo da cetose. É fundamental dizer que a mera saída da cetose já reduz o colesterol e isso ocorre rapidamente.

Fontes e referências

Ketogenic Diet and Microbiota: Friends or Enemies? Revisão com as diretrizes nutricionais para microbiota na Cetogênica

Induced ketosis as a treatment for neuroprogressive disorders: food for thought? Revisão de Cetogênica para transtornos mentais com diretrizes nutricionais futuras: ver “Future Directions and Conclusions”

Aula especial sobre colesterol, exames e marcadores cardiovasculares de Henrique Freire (conteúdo restrito aos alunos do nutricionista)

Questões cardíacas na Carnívora (VLDL, LDL e como carnívora nem sempre é Cetogênica): My Gene Food, um site que vale a pena ler, incluindo a entrevista com a carnívora Amber O’Hearn

Relatório Fona International Cetogênica 2020: análise de mercado para as empresas de produtos alimentares globais, indicando para onde a Cetogênica se encaminha no futuro

Clinical implications of discordance between low-density lipoprotein cholesterol and particle number

Paradox of hypercholesterolaemia in highly trained, keto-adapted athletes: Stephen Phinney e Jeff Volek levantam a questão do Acetil-Coa e colesterol na Cetogênica

Influence of food components on lipid metabolism: scenarios and perspective on the control and prevention of dyslipidemias

“Meat and Homocysteine- Irrelevant or Dangerous?” – Bret Scher, cardiologista Diet Doctor 

The effect of diet on plasma homocysteine concentrations in healthy male subjects: relação entre onívoros, veganos, homocisteína e B12

Apolipoprotein E: from cardiovascular disease to neurodegenerative disorders

Aumento de triglicerídeos normal e temporário

High Cholesterol Levels Drop Naturally In Children On High-fat Anti-seizure Diet, Study Show: estudo de Kossoff durou 4 anos e concluiu que colesterol é reduzido naturalmente, com ou sem intervenções na dieta

Insulina e receptores de LDL: aula com o Ph.D Chris Masterjohn, um nome que vale muito a pena seguir (comece a ouvir aos 37 minutos, para pegar a questão das adrenais e estresse crônico, seguida dos receptores).