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Vícios são o padrão do seu cérebro [viagem através da evolução natural e da filosofia milenar]

Vícios são o padrão do seu cérebro [viagem através da evolução natural e da filosofia milenar] 1

Então, você cortou o pão e aumentou o álcool. Cortou o álcool e aumentou ansiolíticos. Cortou remédios e se arrebenta na academia. Reduziu academia e engordou. Bem-vindo ao funcionamento do cérebro.

O correto seria eu enfatizar, em cada texto e vídeo, que todos somos doentes. Preciso que você compreenda isso por dois motivos:

  1. é o que a ciência e a sabedoria milenar comprovam.
  2. você precisa parar de se sentir culpado e começar a enxergar as coisas com lucidez.

Se não houver lucidez sobre si mesmo, não conseguiremos caminhar de verdade. Ficaremos como ratos girando em gaiolas, trocando os objetos de vício. Ou, pior ainda, celebrando padrões doentes e os indicando às pessoas como tratamento (!!).

Se você já afundou nessa realidade, se já chegou ao ponto do “não tem para onde fugir”, é com você que eu falo. Se você ainda acha que trocar uma coisa por outra basta, apenas agradeça e prossiga sua jornada.

Neste texto, quero andar com você através de três pontos: ciência evolutiva, filosofia oriental e sua vida.

Os três são excelentes complementos e quase sempre apontam na mesma direção.

A origem da insatisfação

Vou começar da parte mais divertida: dukkha, o conceito-chave da filosofia oriental.

É o que muitos denominam de “sofrimento”. Não considero esta tradução adequada. Dukkha é a insatisfação permanente. Se você já estudou um pouquinho de psicanálise, sabe que a insatisfação permanente é a base da psicanálise também.

Quero que você leia três afirmações:

“A mudança, o desejo, os hábitos, a atividade externa do mundo, tudo isso gera insatisfação. Na realidade, até os sábios sentem insatisfação, porque ela está em todos os lugares.”

Yoga Sutras, de Patanjali

“Esta é a primeira nobre verdade: tudo é dukkha. O nascimento é dukkha, a vida é dukkha, a velhice, a doença, a morte são dukkha.”

Buda

“Jamais um ser humano foi inteiramente satisfeito por um objeto, qualquer que seja. A insatisfação é estrutural na condição humana. Mas, hoje, ouvimos dizer que não. De maneira alguma. ‘O objeto que satisfaz inteiramente é possível. Se você trabalhar para encontrá-lo, o encontrará.’”

Psicanalistas Jean-Pierre Lebrun e Charles Melman, na obra “O homem sem gravidade: gozar a qualquer preço”

Cruzamos algo como dois mil anos em três falas. Infelizmente, pouco mudou. Aliás, parece que regredimos bastante.

A insatisfação permanente tem origem em dois sentimentos: o desejo e o medo.

Esta é a prisão fundamental do ser humano, viver apenas para atrair o que dá prazer e repelir aquilo que gera medo. É, de fato, uma existência muito miserável.

Más notícias para nós, porque a evolução natural “construiu” nosso cérebro justamente para isso: acordar diariamente para obter mais e para nos afastar daquilo que ameaça nossa sobrevivência.

Vamos à ciência evolutiva então.

Passei 13 anos da minha vida debruçada sobre grandes cientistas. Estudando a obra e tendo aulas presenciais com nomes como Steven Pinker, Paul Bloom, Paul Zak, Joshua Greene, Richard Dawkins, Daniel Dennett e outros grandes cientistas que buscam compreender o ser humano a partir da perspectiva evolutiva.

As perguntas eram constantes: por que nosso cérebro chegou onde chegou? Por que ele evoluiu desta forma? O que podemos fazer para mudar este quadro?

O que seu cérebro quer de você

Vícios são o padrão do seu cérebro [viagem através da evolução natural e da filosofia milenar] 2

É importante que você entenda que, da perspectiva evolutiva, seu cérebro tem apenas um objetivo: transmitir os seus genes para a próxima geração.

Lembra das aulas de biologia? Os animais mais fortes procriam, se alimentam, defendem seu território e vencem a corrida pela reprodução. Os mais fracos perecem.

Não fique bravo comigo se pareço materialista ou reducionista demais. Estou falando do seu cérebro, não de você. Você não ficaria tão bravo se eu estivesse falando do seu fêmur.

Por mais que o ser humano seja capaz de superar o determinismo biológico, nosso corpo é animal. Ele seguiu as regras da natureza.

Compreender que seu cérebro reproduz este padrão natural automaticamente é o primeiro passo para entender o que acontece dentro de você… Para saber como jogar com os instintos. Principalmente, para poder se afastar emocionalmente do condicionamento biológico.

Ok, temos medo e prazer nos motivando (abra o instagram e comprove isso).

Quero falar sobre o medo em um post futuro, porque ele é tão importante quanto o prazer. Trarei um estudo muito legal que mostra como o ambiente pode realmente programar nosso cérebro para ver perigo em tudo (estresse constante) ou reduzir significativamente a percepção de perigo em nossas mentes (a merecida e rara paz interna). Te inscreve no site para receber, se quiser.

Vamos focar no prazer agora, que é o que fazemos de melhor como espécie.

Perguntas básicas que nos interessam:

  • Por que perseguimos o prazer?
  • Por que ele dura tão pouco (e mesmo assim o queremos tanto)?
  • Por que mentimos para nós mesmos que uma conquista (um emprego, um peso, um namorado, um docinho ou qualquer objeto) nos trará satisfação permanente?

Se quisermos entender estas crenças que mentem sobre algum prazer material permanente – e como ou por que estas crenças surgem e nos dominam – precisamos olhar para a dopamina.

Como a dopamina rege sua vida

Na mídia, comumente vemos a dopamina chamada de “químico do prazer” ou “da recompensa”. A verdade é que estes sistemas de prazer e recompensa são bem mais complexos do que isso. O efeito da dopamina depende da região do cérebro, de quais neurônios e receptores estão envolvidos etc.

Mas, a correlação entre prazer, recompensa e dopamina é forte o suficiente para aceitarmos esta simplificação. Quero que você olhe para um estudo comigo.

Estudo clássico.

1 – Damos um suco ao macaco e vemos como o cérebro dele reage.

2 – Ensinamos o macaco a antecipar o suco. Acendemos uma luz, ele levanta a alavanca e o suco surge. Ele bebe o suco e vemos como o cérebro reagiu a tudo isso.

3 – Repetimos a luz, ele levanta a alavanca e não há suco. Vemos como o cérebro reagiu ao processo.

compulsão estudo cérebro vícios dopamina

Na experiência 1, o macaco prova o suco pela primeira vez. Há um pico de dopamina, que “ensina” ao macaco que aquilo é prazeroso e que ele deve obter mais suco no futuro. Este pico, caso você esteja se perguntando, dura exato 1/3 de segundo.

Na experiência 2, o macaco aprendeu a antecipar o prazer. A luz acende e já há um grande pico de dopamina antes mesmo dele enxergar o suco. Mas, quando ele bebe o suco, o cérebro não dispara prazer algum. Ferrou, amigo símio.

Na experiência 3, a luz acende, a dopamina dispara e, quando o suco não chega, há uma significativa queda da dopamina. Olha que bonita a tua alteração mental na falta do docinho depois do almoço. Drogas mais pesadas, então…

Questões: se você quiser discutir com a evolução natural, apresento algumas ótimas questões: por que meu chocolate não gera um prazer extenso ou por que a paixão acaba tão rápido? Por que minha grande conquista já não me traz satisfação (será que eu cheguei a ter alguma satisfação)?

Acrescento uma pergunta que pode ter escapado a você, mas que é essencial: por que não conseguimos focar neste caráter efêmero e simplesmente deixar o objeto de lado? Afinal, é tanto esforço para tão pouco prazer…

Respostas: o que é necessário para que um ser vivo prospere na cadeia evolutiva? Comer e reproduzir, obviamente. Em algumas espécies mais complexas, o status social também aparece como um fator importante para determinar qual membro do grupo vencerá a corrida pela reprodução.

Como levar um animal a comer, fazer sexo e ter algum status social?

A resposta lógica nos levará à compreensão do nosso cérebro.

1 – O animal precisará sentir prazer em comer e fazer sexo.

É preciso reforçar estes padrões para manter o animal comendo e reproduzindo. Coma mais. Transe mais. Coma mais.

2 – O prazer não pode durar.

Se você comer uma refeição e passar dias deitado se deleitando em prazer, morrerá – seja de fome ou porque algum predador te pegou descansando (ou seu concorrente foi reproduzir com a fêmea no seu lugar). Os genes para a inquietação e para a insatisfação são chave para que você siga ansioso, querendo mais, e vença a corrida evolutiva.

3 – O animal precisa focar mais no prazer do que na efemeridade do prazer.

Se você não lembrar que a conquista não te suprirá, você se tornará obstinado e conquistará o que deseja. Seu foco na conquista será muito mais intenso. Mas, se você de fato incorporar a verdade do prazer, de que ele não durará ou sequer trará uma digna satisfação, você ficará sentado vendo novela. Isso pode parecer engraçado, mas não é. Cérebros sem estes estímulos não têm motivação para levantar do sofá, como já vimos no vídeo sobre o tema.

Estes são os três pressupostos básicos do cérebro animal. É o que nosso corpo foi evoluindo para fazer. Buscar objetos de prazer é nosso padrão mais instintivo. É o que nos torna animais.

Há algo de errado com você?

Note uma questão: “foco na conquista incessante. Orgulho de nunca se bastar. Vencer o suposto concorrente o tempo inteiro. Parecer imbatível constantemente.”

São os valores que regem nosso mundo contemporâneo. São valores bem semelhantes àqueles que regem os animais. Seria uma estagnação natural ou uma evolução natural? Bem, não há respostas certas ou erradas, mas tenha coragem de se perguntar o que é evolução para você.

Digo isso porque talvez você não consiga se enquadrar neste modelo básico de existência. Talvez, você sinta uma vontade de explodir sua própria mente e se libertar deste “modo default do cérebro”, como conceitua o neurocientista e psiquiatra especialista em vícios, Judson Brewer, e o jornalista Dan Harris, autor de “10% Happier” [10% Mais Feliz].

Amigo, perceba que não há nada errado com você.

Neste post, não quero fazer um manual com “o segredo para superar a evolução natural”. Pelo contrário. Quero apenas que você compreenda como seu cérebro exerce influência sobre você.

Quero que você celebre o que merece ser celebrado e se afaste dos gatilhos e das formas de pensamento que se orgulham daquilo que gera as doenças.

Também, quero que você perceba que somos todos afetados por estas forças. Alguns sofrem mais outros menos.

Alguns celebram as prisões, outros conseguem ignorá-las a vida inteira. Alguns têm desequilíbrios químicos que tornam os padrões terrivelmente sofríveis – nestes casos, precisamos ajudar estes cérebros com intervenções (com o mínimo de efeitos colaterais possível, por favor).

Outros têm uma consciência tão grande destas prisões que manifestam os mesmos padrões terríveis, mas por causas mais subjetivas. Outros unem questões químicas e subjetivas: é bem difícil, mas é belo.

Acima de tudo, quero que você saiba que existem caminhos para escapar desta “gaiola” (um bom termo para se referir à nossa natureza selvagem).

Não foi à toa que introduzi o texto com Buda e Patanjali. São dois exemplos perfeitos de filosofias que criaram um verdadeiro método apenas para transcender a natureza animal e elevar o ser humano à sua… Humanidade.

Não é preciso ser budista ou yogi para alcançar este feito. Contudo, no mundo atual, em que a lógica que gera a doença é utilizada para vencer os sintomas da doença, é crucial trazer estes aprendizados à tona.

O primeiro passo destas filosofias é o conhecimento que leva à lucidez. Um conhecimento que nos permite afastamento emocional da conquista e da derrota… Que nos permite alguma tranquilidade interna, livre dos objetos.

Espero que você tenha se libertado um pouquinho da ideia da culpa, da suposta fraqueza individual, da comparação com os outros. Se hoje você tiver construído um pouquinho mais de lucidez sobre os processos que acontecem dentro de você, teremos dado um grande passo.

O que você pode fazer hoje

Reflita sobre tudo isso. Comece a notar seus hábitos e vícios. Desligue seu celular e se observe.

Lembre-se como o padrão se formou no macaco. Veja como os mecanismos de antecipação geraram ainda mais prazer no macaco do que o próprio suco. Observe quais são os seus mecanismos de antecipação (os gatilhos).

A regra é simples: se não for possível cortar o hábito, vá desligando os gatilhos gradativamente (ou substituindo as recompensas por experiências agregadoras de fato).

Para conhecer os gatilhos, escreva muito ou tenha uma excelente memória. Note o que gera ansiedade, quem gera, o que acontece imediatamente antes de você recorrer ao objeto, ao longo de todo o dia e ao longo de toda a semana também. Conheça os mecanismos que disparam o desejo e afaste-os um por um.

Não fume logo após acordar. Aguarde alguns minutos. Introduza um novo hábito antes de acender o cigarro – um banho, arrumar a casa, o que for. Observe sua mente enquanto você não dá a ela o que ela quer. Apenas observe.

Não tenha chocolate em casa. Coma-o na rua, mas não o leve para casa. Troque a rotina em casa, aquela que te levava ao chocolate naquela hora de sempre. Mude a rotina, reconstrua a estrutura que propiciava o hábito. Observe como a mente se comporta.

IMPORTANTE: cada gatilho leva de três a cinco meses para ser reduzido ou até extirpado.

Portanto, faça uma coisa por vez. Preocupe-se mais em fixar uma mudança simples do que em incorporar trocentas mudanças ao mesmo tempo.

Lembre-se: a ansiedade de vencer tudo e todos é aquilo que você compartilha com o macaco – e você quer superar este cérebro.

Então, vá trabalhando naquilo que te diferencia: lucidez sobre o cultivo daquilo que permanece em você; afastamento emocional daquilo que te afeta.

O que constrói um novo cérebro, aquilo que te distingue do macaco, é a sua capacidade de se afastar da corrida pela reprodução, não a sua capacidade de celebrar sua própria prisão.

Posso te deixar um grande abraço? Estamos juntos nesta grande e bela jornada.

5 Comentários

    1. Ah, ah expectativa é mordaz, não é mesmo? Sim, tivemos um primeiro vídeo geral e teremos mais três vídeos relacionados ao método sinclair especificamente: para o alcoolismo, que é o propósito do método, e o que os profissionais ligados ao método sugerem para compulsão alimentar e para nicotina.

  1. interessante o quadro da luz e o suco
    a antecipacao e reacao do macaco
    na verdade configurou a luz como um gatilho da busca ao prezer
    adorei

  2. Maravilhoso, tenho percebido bem meus gatilhos. Será esse pico de um terço de segundo de dopamina, aquela microinfarto que eu tenho quando ouço o som das notificações do whatsaap e facebook, antecipando o prazer do elogio e o medo da critica? Será aquela taquicardia e respiração curta que vem quando decido que “preciso” COMPRAR coisa X pra atividade Y? Será essa queda de dopamina aquela necessidade de um prazer imediato logo que acordo, seja me masturbar, olhar o celular ou voltar a dormir? Será esta deficiência- ou talvez ineficiência- dopaminérgica que além de me fazer carente de elogios e comprador de coisas, também me faz acordar “com fome” , tomar muito café, querer ter razão em discussões e encher minha agenda de atividades que eu penso gosto e preciso?
    Nunca pensei pela ótica do sistema de recompensa, mas tem feito muito sentido. Seria realmente muita ingenuidade eu pensar que dois comprimidos e um médico perfeito são os únicos responsáveis pelo meu afastamento de bebidas, drogas, amidos e açúcares; pela reaproximação de bons hábitos que me livrariam pra sempre da obesidade, compulsão, depressão, ansiedade e outros perrengues associados; que tal fórmula do sucesso funcionaria eternamente bastando apenas que eu tivesse “força de vontade”. Só queria dizer, com todo o Dharma do meu coração: ah, Dr. Carlos… teu cu!
    Sobretudo agora que eu me dedico ao trabalho de me desidentificar dessa mente regida por um “wrecked brain” através da meditação e do viver meditativo (e terapia, e boxe, e Iaidô, e prática de hobbys) consigo assistir ao que se passa na interação dos mundos interior e exterior, sem me identificar nem me apegar demasiadamente a isto, e assim consigo abraçar a impermanência, aceitar a insatisfação e agir sobre o sofrimento -invés de apenas sofrer.

    1. Pedro, tu é genial. Tenho adorado tuas intervenções. Sagaz, pronto, no caminho. Tuas questões são excelentes e as respostas que tem encontrado vão te levar, inevitavelmente, onde tu quer.

      (p.s: compartilho de muitas sensações, cravings por dopamina em horas bizarras, como tu mencionou sentir. Sei que não somos apenas nós dois neste barco. Somos muitos aliás)

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