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Guia Dieta Cetogênica para autismo: o que os pais precisam saber

Guia Dieta Cetogênica para autismo: o que os pais precisam saber 1

O autismo é uma das condições mais complexas da atualidade. A desordem do desenvolvimento neurológico é chamada de diferentes nomes, como TGD (transtorno global do desenvolvimento), TID (transtorno invasivo do desenvolvimento), TEA (transtorno do espectro autista).

Independentemente do termo utilizado, os números de casos de autismo estão subindo com uma velocidade assustadora. O Centers for Disease Control and Prevention (CDC), estima que 1 a cada 59 crianças é diagnosticada com autismo (2018).  Nos anos 1970 ou 1980, era 1 a cada 2.000.

A medicina ainda não tem respostas sobre causas ou tratamentos do autismo. O que sabemos é que os sintomas são variados e afetam o desenvolvimento da linguagem e as funções sociais.

Dieta Cetogênica: a pílula mágica?

Você provavelmente se interessou pelo uso da Dieta Cetogênica (Dieta Keto) para o transtorno do espectro autista ao assistir ao documentário The Magic Pill (A pílula mágica), disponível na Netflix e que coloco para você logo abaixo.

No filme, duas crianças com autismo e epilepsia são introduzidas à cetose e o espectador vê os sintomas regredirem radicalmente através dos meses.

Tenho a honra de atender uma jovem adulta diagnosticada com o transtorno do espectro autista. É a ela que dedico este post. Também, a todos os papais e mamães que sequer conhecem a Dieta Cetogênica. Não é comum eu tê-los no meu site, geralmente visitado por quem já conhece bem a dieta.

Por isso, tentei desenvolver um verdadeiro guia para vocês, esmiuçando detalhes da dieta necessários para seu filho, como suplementações, benefícios e dados científicos.

A primeira coisa que você deve saber é que a Dieta Cetogênica, quando utilizada para tratamentos de doenças metabólicas, neurológicas e psiquiátricas, é uma abordagem nutricional que envolve o consumo de baixíssimos carboidratos, proteínas moderadas e gordura elevada com o objetivo de levar o corpo do paciente ao chamado estado de cetose (elevação da produção de corpos cetônicos no organismo).

Se você não conhece a Dieta Cetogênica, leia este conteúdo até o final e, logo depois, acesse o Guia da Dieta Cetogênica.

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Retirada do glúten e dos laticínios (caseína) para autismo

Uma das mais populares dietas no tratamento do autismo é a chamada Gluten Free Casein Free Diet (Dieta sem glúten e sem caseína).

O glúten é um tipo de proteína encontrada no trigo, cevada, triticale e centeio.

E a caseína? A caseína é uma proteína encontrada nos laticínios. Ela é a responsável pela chamada alergia aos laticínios, que não deve ser confundida com intolerância à lactose.

A intolerância à lactose está relacionada ao açúcar do leite (lactose) e a alergia é uma reação do corpo a esta proteína do leite (caseína), que é identificada como uma ameaça.

No caso do autismo, há pouca pesquisa sobre a relação entre a caseína e a desordem. Muitos pais testam a retirada completa dos laticínios mesmo que os exames não apontem qualquer tipo de necessidade de restrição. Mesmo nestes casos, há depoimentos de melhorias no comportamento e na linguagem.

Uma hipótese sobre a melhoria a partir da exclusão destes alimentos é a redução de inflamações que eles podem gerar no organismo. Outra hipótese é algo comumente vivido por quem segue a Dieta Cetogênica: estas proteínas geram atividade excessiva no sistema opioidérgico, responsável pelo controle da dor, da recompensa e do comportamento adictivo (vícios).

Na realidade, os adeptos da Keto sentem isso, mesmo sem compreender o motivo. Redução de dor e de comportamentos adictivos são comumente relatados. Ainda, redução de estados depressivos ou excessivamente ansiosos, também associados a desregulações neste sistema.

Poucos adeptos da Dieta Cetogênica sabem, mas a relação entre os alimentos banidos da dieta e o sistema opioidérgico é possivelmente uma das chaves para a melhoria de quadros de compulsão alimentar e vícios com a dieta Keto.

Atualmente, o psiquiatra de Harvard, Chris Palmer, está pesquisando a relação entre cetose e o sistema opioidérgico. Há outros estudos em andamento investigando esta relação, especialmente para tratamentos de alcoolismo.

Trabalho com Palmer e sou a tradutora oficial dos conteúdos do psiquiatra e acompanho seu belo trabalho de perto. Clique aqui para conhecer o que o psiquiatra Chris Palmer ensina sobre a utilização da Cetogênica para tratamento de transtornos mentais.

No caso do autismo, existem alguns estudos ligando o transtorno ao receptor opioide μ (mu ou mi). Inclusive, alguns tratamentos com a medicação naltrexona, comum para tratamento de adicções, inclusive compulsão alimentar, foram testados para o autismo, pois é um antagonista opioide. Falo mais sobre a naltrexona no vídeo sobre a utilização desta medicação para o alcoolismo. Clique aqui se lhe interessar.

“Curando nossas crianças autistas” com a Cetogênica sem glúten e sem caseína

É fato que nem todas as crianças apresentam restrições ao glúten e à caseína e este pode ser o motivo pelo qual alguns estudos mostraram eficácia questionável para a retirada destas proteínas.

Contudo, um estudo randomizado apontou uma nova direção: 45 crianças diagnosticadas com o transtorno do espectro autista foram randomizadas em três dietas diferentes por seis meses: 15 crianças seguiram a Cetogênica, 15 seguiram a dieta sem glúten e sem caseína (uma dieta não cetogênica), 15 seguiram a dieta padrão (grupo controle).

Crianças na Cetogênica e na dieta sem glúten e sem caseína tiveram melhoria significativa nos sintomas. Porém, aquelas que seguiram a Dieta Cetogênica tiveram melhoria superiora no funcionamento social e cognitivo (2017, Metabolic Brain Disease).

Uma das mais respeitadas instituições do mundo para Dieta Cetogênica e epilepsia, a Charlie Foundation, recomenda esta versão da dieta para o tratamento do transtorno do espectro autista: a Cetogênica sem glúten e sem caseína.

A nutricionista da Charlie Foundation, Beth Zupec-Kania, já introduziu a cetose em crianças autistas que não responderam suficientemente à restrição do glúten e da caseína, tendo melhoria significativa nos resultados a partir da verificação e manutenção da cetose.

Quem também indica esta versão da Cetogênica é a médica Julie Buckley.

autismo dieta cetogenica low carb gluten caseinaBuckley é criadora da HEAL Foundation, fundação dedicada ao tratamento do autismo, e autora do livro Healing Our Autistic Children: A Medical Plan for Restoring Your Child’s Health (Curando nossas crianças autistas: um plano médico para restaurar a saúde do seu filho), uma dica de leitura Keto aos pais que falam inglês.

“Recomendo a Dieta Cetogênica sem laticínios para todas as famílias que possuem crianças com o transtorno do espectro autista. Não existe motivo para não tentar”, aponta Dra. Julie Buckley.

Buckley é frequentemente convidada para seminários Cetogênicos internacionais e foi uma das autoras de um relato de caso publicado em 2013, que coloco abaixo. Sua própria filha, diagnosticada com o transtorno, segue a dieta Cetogênica há muitos anos e teve melhoria cognitiva surpreendente. A médica diz que a cetose foi um eixo essencial para cruzar a puberdade da filha – uma fase em que sintomas e crises frequentemente são agravados.

No relato de caso de Martha Herbert (Harvard) e Buckley (Nova Southeastern), publicado no Journal of Child Neurology, 2013, as médicas descrevem o caso da menina diagnosticada com autismo severo desde os 4 anos de idade. À menina, foi recomendada a dieta sem glúten e sem caseína (não era uma Dieta Cetogênica) e a reposta já foi significativa nos sintomas do transtorno. Na puberdade, a chegada das crises epilépticas não foi solucionada com remédios.

Ela seguiu com as medicações antiepilépticas e mudou a dieta para a Cetogênica sem laticínios e sem glúten e as crises foram significativamente reduzidas. Com esta versão da Cetogênica, a obesidade foi tratada e questões cognitivas e comportamentais tiveram grande melhoria.

Ao longo dos anos de tratamento com a cetose e sem glúten e sem caseína, a menina passou da escala 49 para 17 (Childhood Autism Rating Scale).

Isso representa a conversão de um diagnóstico de autismo severo para o fim do diagnóstico relacionado ao transtorno. Seria a cura do autismo neste caso. Seu QI foi elevado em 70 pontos com a dieta. 14 meses após a introdução da cetose, ela estava basicamente livre de crises epilépticas também.

Utilização de MCTs na Dieta Cetogênica para autismo

A dieta de Buckley utiliza MCTs como fonte principal de gorduras (em vez de manteiga e/ou nata e creme de leite). Já falaremos sobre estes suplementos. Como os MCTs geram uma produção elevada de corpos cetônicos, a menina pôde reduzir a proporção de macros da dieta para apenas 1,5:1, podendo elevar os carboidratos de vegetais.

A utilização dos MCTs é recorrente nos estudos de terapias alimentares cetogênicas para autismo, epilepsia e transtornos neurológicos e psiquiátricos em geral. Por isso, vou explicar brevemente o que são MCTs e falar um pouco desta proporção de macros para que você entenda de forma geral.

O que são MCTs? Aliados nos tratamentos cetogênicos

A sigla MCT (TCM, em português) significa triglicerídeos de cadeia média. O MCT é um tipo de suplemento que pode vir no formato óleo ou pó e que é extraído do óleo de coco refinado. Os MCTs podem ser comprados puros ou como parte dos suplementos infantis utilizados no tratamento de epilepsia infantil, como o KetoCal, KetoVie e KetoVolve.

Existem 3 tipos de Cs principais neste suplemento: C8 (ácido caprílico), C10 (ácido cáprico), C12 (ácido láurico). Os números que acompanham cada C significam o comprimento da cadeia de Carbonos (C).

  • O óleo de coco, este que você compra em supermercados, é majoritariamente composto por ácido láurico (C12).
  • O MCT que você compra em lojas de suplementação usualmente possui apenas C8 e C10 (quanto mais C8, mais caro e mais rápida a energia e a produção de corpos cetônicos).
  • Já o chamado Brain Octane (da marca Bulletproof), que você compra pela internet, é formado apenas de C8. A energia provida pelo Brain Octane é grande e rápida e a produção de corpos cetônicos é ainda mais otimizada.

Contudo, é importante frisar que, quanto mais estudamos o poder destes ácidos, mais descobrimos que cada um deles tem um papel fundamental no tratamento das desordens. Todos importam.

Leia mais sobre os Tipos de Dieta Cetogênica para tratamentos médicos

Nota sobre proporções de macros na Cetogênica

O estudo de Buckley utilizou grande quantidade de MCTs e, por isso, pôde reduzir a quantidade de suplementação de outras gorduras (como já mencionei, creme de leite, manteiga etc que não são tão eficientes na elevação da cetose).

A Cetogênica clássica utilizava apenas laticínios em sua origem (1920). Laticínios não são as melhores gorduras para produzir corpos cetônicos. Por isso, até 90% das calorias, na dieta original, vinha de laticínios. A proporção dos chamados macronutrientes (carboidratos, proteínas e gorduras) era de 4 para 1, ou melhor, 4:1. Isso significa que, para cada 4g de gordura, o paciente deveria ingerir 1g de carboidratos + proteínas.

A Cetogênica 4:1 é uma dieta muito eficiente, mas bastante restrita, que precisa de contagens, pesagem dos alimentos, suplementações e cuidados médicos constantes.

As variações da Dieta Cetogênica surgiram por isso ao longo dos anos, para ampliar possibilidades alimentares sem prejudicar o tratamento.

Focando nas gorduras mais eficazes para a produção de corpos cetônicos, o paciente atinge cetose elevada com um número maior de proteínas e/ou carboidratos cetogênicos. Sem necessidade estrita de calcular tudo o tempo todo.

No caso de Buckley, como 30% das gorduras vinham de MCTs, eles conseguiram reduzir a proporção de macros para 1,5:1, o que é bastante liberal e nem tão comum nas dietas terapêuticas. Para cada 1,5g de gorduras específicas ingeridas, o paciente podia comer 1g de carboidratos + proteínas.

Reforço: não são todos os pacientes que atingem resultados com proporções tão baixas, com quantidades tão liberais de carboidratos e proteínas. Monitore os níveis de corpos cetônicos no aparelho Freestyle Optium Neo. Caso o aparelho indique que você não atingiu os níveis mínimos de cetose nutricional induzida, observe se a proporção de gorduras (ou MCTs) precisa ser aumentada ou se há carboidratos demais.

Clique aqui para saber mais sobre as medições de cetose

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Na imagem abaixo, você vê as diferenças nos pratos entre as diferentes proporções das Dietas Cetogênicas. Todas as refeições têm a mesma quantidade de calorias e os mesmos ingredientes.

No prato verde, a proporção é 1:1. Maionese, frango, brócolis e azeite de oliva por cima. Isso é uma dieta 1:1 [perceba que há praticamente 30g de gorduras para 30g de proteínas + carboidratos. Isso é a proporção 1 para 1].

O prato amarelo possui proporção 2:1, muito próximo do utilizado por Buckley, com a suplementação dos MCTs [perceba que há 36g de gordura para 18g de carboidratos e proteínas combinados. O dobro de gorduras, 2:1].

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Cetogênica para transtorno do espectro autista

O sucesso da união da dieta sem glúten e sem caseína com Dieta Cetogênica nos leva a olhar os efeitos da cetose sobre o autismo. A ideia não é nova. Estudos de 1920 já apontavam como a cetose era capaz de promover maior “clareza” e “estado de alerta” em crianças com deficiências intelectuais (Kossoff, 2016).

Possivelmente, o primeiro estudo a analisar a Cetogênica para autismo veio do Dr. Athanasios Evangeliou, publicado no Journal of Child Neurology, em 2003. Nesta pesquisa, 30 crianças diagnosticadas com transtorno do espectro autista, entre 3 e 10 anos, sem epilepsia, experimentaram a variação da Dieta Cetogênica chamada de Dieta do MCT por seis meses.

Para melhorar a taxa de adesão à dieta, Dr. Evangeliou fez uma ciclagem: Cetogênica durante quatro semanas e saída da dieta por duas semanas.

18 crianças concluíram o estudo de seis meses. Destes, dois meninos tiveram melhoria dramática (ambos com autismo de grau leve), oito tiveram melhoria modesta e oito tiveram melhoria mínima dos sintomas.

Os resultados teriam sido mais significativos se não houvesse saída da dieta? Uma questão crucial que permanece para pesquisas futuras.

A Dieta do MCT é uma variação da Cetogênica similar à dieta usada por Buckley. Abordo a Dieta do MCT na live sobre Tipos de Dieta Cetogênica. Assista abaixo.

Por que a cetose ajuda no autismo?

Ainda não sabemos exatamente por que a cetose gera benefícios no cérebro destes pacientes. A pesquisadora Susan Masino é um nome a ser seguido. Ela é autora da obra Ketogenic Diet and Metabolic Therapies [Dieta Cetogênica e Terapias Metabólicas] e tem estudado a Cetogênica para diversas desordens neurológicas.

As pesquisas de Masino demonstraram que certos compostos biológicos são elevados no cérebro em cetose. Sua hipótese é a de que a elevação da Adenosina é uma chave na Dieta Cetogênica e pode ser um fator fundamental na melhoria dos sintomas do autismo.

A adenosina tem incontáveis funções no organismo. No cérebro, ela é um neurotransmissor inibitório, que colabora na redução da excitação. Ela ajuda na dilatação dos vasos sanguíneos cerebrais, possivelmente para permitir uma melhor oxigenação durante o sono.

Masino testou os efeitos comportamentais da cetose em ratos com sintomas do transtorno, incluindo baixa sociabilidade e comportamentos repetitivos. Como esperado, os ratos em cetose tiveram reversão significativa dos sintomas, ao ponto que passaram a ser comparados aos ratos saudáveis.

“Estes comportamentos representam o núcleo de sintomas usados para diagnosticar o autismo e todos foram revertidos com a Dieta Cetogênica”, disse Masino.

Epilepsia e autismo

É essencial que você saiba que crises epilépticas são comuns em pacientes diagnosticados com autismo (de 20% a 30% dos pacientes com transtorno do espectro autista têm epilepsia também). Mais ainda, epilepsia é a complicação neurológica mais comum no autismo.

Exames de imagem e eletroencefalograma (EEG) podem ser necessários para averiguar se este é o seu caso. Mais um motivo para você considerar a Dieta Cetogênica, cientificamente comprovada como tratamento para epilepsia.

Não à toa, quando vou agrupar as desordens que trabalho com Cetogênica, as conceituo como “desordens que geram tempestades cerebrais”. Mas, a cetogênica melhora apenas as “tempestades” (crises) ou há outros benefícios? Se seu filho não apresenta anormalidades no EEG, a Cetogênica pode fazer algo por ele?

Sim. Os pesquisadores têm sido cautelosos na verificação do motivo exato da melhoria. Para isso, muitos deles incluem apenas animais sem crises epilépticas nos estudos.

Benefícios da Cetogênica para doenças neurológicas

“Quando cientistas começaram a compreender como a dieta funciona no controle das crises, eles acabaram descobrindo mecanismos que tornam a abordagem nutricional relevante para outras desordens neurológicas também”, explica Jong Rho, um dos nomes mais importantes da neurologia pediátrica no mundo.

Rho é pesquisador e especialista no uso de terapias para condições neurológicas pediátricas. Sua equipe já publicou mais de uma centena de artigos e estudos clínicos sobre a atuação da Cetogênica em casos de epilepsia e desordens de desenvolvimento neurológico, como o autismo.

Alguns dos mecanismos encontrados por Rho são:

  • Corpos cetônicos dão ao cérebro um combustível alternativo, que pode suprir deficiências energéticas. O uso de corpos cetônicos como combustível pode reduzir o estresse oxidativo.
  • A cetose pode proteger o cérebro ao melhorar a função celular, o sistema nervoso, restaurando a homeostase (equilíbrio). A cetose pode acalmar as células nervosas que estão disparando excessivamente e ativar aquelas que estão deficientes.
  • A cetose pode reduzir inflamação, um fator de risco para doenças neurológicas diversas. O laboratório de pesquisas de Susan Masino foi o primeiro a provar que a Dieta Cetogênica reduz inflamações em ratos. Agora, outros grupos estão dedicando seus esforços a compreender o impacto desta redução inflamatória no autismo especificamente.
  • Há mudanças epigenéticas que inibem a expressão de alguns genes ligados a problemas neurológicos.
  • A cetose pode alterar a microbiota, o que melhora a comunicação entre intestino e cérebro. No autismo, já foi comprovado anormalidades na microbiota.

“Existem tantas interseções entre os mecanismos, que não é possível extrair apenas um fator”, explica Rho. “Pode ser uma combinação de fatores trabalhando conjuntamente que produzem os benefícios. Cada vez mais estamos demonstrando nas pesquisas que podemos alcançar estas melhorias apenas mudando a dieta. É realmente poderosa”, conclui o pesquisador.

A imagem abaixo, de Rho e Masino, ilustra a complexidade dos mecanismos através dos quais a cetose transforma o organismo. 

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Como aponta o psiquiatra de Harvard, Dr. Chris Palmer, a indústria farmacêutica tem gastado bilhões de dólares para tentar mimetizar o efeito da cetose com remédios. Contudo, Palmer e os neurologistas que utilizam a abordagem nutricional para tratamentos são céticos sobre a criação de um “remédio mágico”, justamente pela complexidade da cetose no organismo.

Os mecanismos de atuação da cetose são amplamente compartilhados aqui no site. No caso do autismo, é justo lembrar que mais estudos são necessários. Contudo, é preciso ressaltar que uma mudança na dieta é algo relativamente simples e que pode oferecer uma esperança às famílias dispostas a tentar.

Cetogênica e autismo: relatos de caso e estudos promissores

O número de publicações relacionando Cetogênica e autismo tem crescido. Eles nos ajudam a compreender os detalhes da cetose sobre o transtorno do espectro autista especificamente. Já falamos sobre diversos casos acima. Vejamos mais dois casos formalmente publicados em periódicos científicos:

  1. Menino de seis anos diagnosticado com autismo e TDAH (transtorno do déficit de atenção) passou pelo exame PET (tomografia por emissão de pósitrons), onde foi detectada deficiência na utilização de glicose no cérebro. Em um mês na Cetogênica, ele demonstrou forte melhoria na hiperatividade, atenção, comunicação, medo, ansiedade e reações emocionais, bem como capacidade de aceitar mudanças. (Metabolic Brain Disease, 2018)
  2. Famílias de 46 crianças foram educadas sobre a Dieta Cetogênica e sobre a suplementação de MCTs (TCMs). Algumas famílias abandonaram o estudo, mas 15 seguiram a dieta por três meses e viram melhorias significativas nos sintomas centrais do transtorno do espectro autista. Em 10 pacientes que continuaram a dieta por seis meses, as melhorias foram mantidas. Os autores do estudo ressaltam que a Dieta Cetogênica com utilização de MCTs é benéfica para o tratamento dos sintomas do autismo, mas precisa de mais pesquisas de longo prazo (Phisiology and Behavior, 2018).

Tempo para verificação dos benefícios da Cetogênica no autismo

Três meses. O número-chave na Dieta Cetogênica. 

Estes três meses de permanência na dieta, utilizados no estudo acima, não são à toa. No maior centro de aplicação da Cetogênica para epilepsia infantil, o Johns Hopkins, os familiares assinam um contrato de experimentação por três meses ao aderirem ao programa da instituição.

Neste período, há comprovação de cetose elevada nos aparelhos medidores. Não se trata apenas de cortar determinados alimentos, mas sim de garantir a manutenção da cetose no organismo do paciente. Para isso, a utilização do já mencionado aparelho Freestyle Optium Neo é fundamental.

Preciso enfatizar este período não apenas para epilepsia, mas como para todas as aplicações da Dieta Cetogênica: do emagrecimento à bipolaridade, não é raro que a dieta comece a surtir efeito no terceiro mês de cetose comprovada.

Já atendi casos em que o cliente com epilepsia estava prestes a desistir, no final do terceiro mês, e a cetose começou a atuar sobre o sistema de uma semana para a outra. Atualmente, meses depois, o eletroencefalograma está perfeito, sem sinais de crises. A cetose é elevada e mantida ao longo deste período. Houve emagrecimento após o segundo mês. Os remédios foram reduzidos pela metade.

Não desista. Comprometa-se por três meses para avaliar os benefícios da Dieta Cetogênica. Este é o pressuposto básico do neurologista Eric Kossoff e é o que vejo em prática também.

Suplementações na Dieta Cetogênica para crianças

Todos os meus clientes suplementam na Dieta Cetogênica. Não falo apenas de minerais nos primeiros meses de dieta, falo de nutrientes deficientes nesta abordagem alimentar. Cada patologia tem sua desregulação específica de nutrientes (vitamina c, ômega 3, B12 etc). A própria cetose eleva o estresse na fase inicial e é interessante balancear esta verdadeira crise no sistema.

Aqui, aponto os principais pontos de cautela descritos por Eric Kossoff (2016), para pais que pensam em introduzir a Cetogênica em seus filhos. Estas suplementações são relacionadas à Cetogênica infantil, não ao autismo especificamente.

  • “É essencial que todas as crianças na Dieta Cetogênica tomem suplementos que preencham as recomendações diárias dos nutrientes. Existem alguns multivitamínicos com baixo carboidrato que podem ser adquiridos em farmácias ou pela internet”, explica o neurologista. Observe sempre há adição de carboidratos nas fórmulas e lembre-se que os líquidos geralmente têm adição de açúcar para dar sabor: evite-os a todo custo.
  • Ômega 3: “Em crianças, recomendamos que de 0,6 a 1,2% das gorduras totais ingeridas sejam poli-insaturadas. Como a Cetogênica é uma dieta de alta gordura, a simples escolha dos alimentos corretos pode suprir este número”, explica Kossoff. O FDA sugere que não se exceda 3g diários, mas não existe um número excessivo estabelecido. Por isso, diz Kossoff, não existe motivo para não suplementar ômega 3 nas crianças. As fontes indicadas destas gorduras pelo neurologista, fora suplementação, são as conhecidas sardinhas, salmão, atum e oleaginosas.
  • MCTs: de 30% a 40% das calorias diárias vêm dos MCTs. As outras gorduras (triglicerídeos de cadeia longa) proverão os outros 30% de calorias. Não é um suplemento necessário se a dieta for mantida com seriedade, mas MCTs são sim conhecidos pela potencialização dos corpos cetônicos. Kossoff sugere que os MCTs sejam introduzidos a partir de 5g a 25g por dia, juntamente com cada refeição da criança. Óleo de coco passa a ser a primeira opção para preparar os alimentos, pois contém uma dose significativa de MCTs também.
  • Cálcio e Vitamina D podem ser ainda mais importantes se a criança estiver usando remédios para epilepsia, especialmente ácido valpróico, pois podem reduzir a densidade óssea e prejudicar o metabolismo do cálcio.
  • Outros nutrientes que devem ser checados para possível suplementação na Cetogênica (cheque os níveis em exames com seu médico): vitamina C, vitamina E, cobre e zinco.  A suplementação de selênio e carnitina pode não ser necessária se a dieta escolhida for a versão da Cetogênica chamada de Atkins Modificada, muito mais abrangente do que a Cetogênica Clássica.

Interessado em experimentar a Dieta Cetogênica e averiguar os benefícios? Acesse a seção com os livros gratuitos sobre a Keto e comece suas leituras.

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2 Comentários
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Rita
Rita
20 dias atrás

Olá, bem interessante, isso vale para TDAH também né? Sem glúten eu já sabia que melhorava, mas sem caseína não sabia.