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Guia | Dieta Cetogênica e Low Carb para transtornos mentais: o que a nutrição pode fazer por você

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Transtornos do humor são minha grande linha de atuação, estudo e prática. É fato que as Dietas Cetogênica e Low Carb oferecem imensa vantagem no emagrecimento e na performance física, mas, ao reduzi-las a isso, estamos deixando de lado o potencial mais significativo desta forma de alimentação: o tratamento de transtornos mentais e emocionais.

A insistência em ligar estas dietas exclusivamente à forma do corpo é um tanto quanto triste, porque passam a ser criticadas como “dietas da moda”, quando, na realidade, são verdadeiros sistemas de tratamento capazes de libertar pessoas de intenso sofrimento interno.

Neste guia de Dieta Cetogênica e Low Carb para transtornos mentais, você verá o que a psiquiatra Georgia Ede tem a dizer sobre as diferentes desordens que trazem as pessoas aos atendimentos comigo. São os mesmos transtornos que me conduziram à cetose.

Minha experiência pessoal está contida na fala da Dra. Ede, que você vai ler logo abaixo.

A cetose foi o mais poderoso “psicofármaco” que já tomei para meus transtornos (bipolaridade, síndrome disfórica pré-menstrual, TDAH e pensamento obsessivo-compulsivo). Estes são alguns dos diagnósticos que recebi ao longo da vida. Se eles estão de fato corretos, eu não sei. O que sei é que todos os medicamentos que tomei tiveram efeitos colaterais insuportáveis, ao ponto de eu preferir lidar com as doenças sem nada do que utilizar medicações.

Na cetose, contudo, os sintomas passaram a ser mínimos.

É preciso dizer que o número de corpos cetônicos importa aqui. A cetose nutricional (0,5mmol/l), usada para emagrecimento, não oferece grande impacto nestes casos.  Buscamos benefícios cognitivos e terapêuticos (de 1,5 a 3,0mmol/l).

Ainda, vale enfatizar que precisamos de uma bela reestruturação do cotidiano e dos padrões mentais destrutivos para atingirmos nossas metas de forma sustentável, por anos e anos.

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Vamos à fala da Dra. Georgia Ede, com revisão do cardiologista Dr. Bret Scher. Você pode encurtar o caminho da leitura “pulando” para a desordem que mais te interessa conhecer.

Guia: Dieta Cetogênica / Low Carb e transtornos mentais: o que a nutrição pode fazer por você

Comer uma dieta de baixo carboidrato com alimentos altamente nutritivos parece ser uma poderosa estratégia para proteger e melhorar a saúde do corpo. Será que essa mesma estratégia nutricional beneficiaria o cérebro? Novos estudos e experiências clínicas sugerem que a resposta é um inquestionável “sim”.

Muitas pessoas pensam sobre transtornos mentais (depressão, ansiedade, déficit de atenção etc) como desequilíbrios químicos que exigem medicação. Mas, com que frequência paramos para pensar sobre a causa destes desequilíbrios químicos?

Enquanto medicamentos claramente ajudam e são importantes para algumas pessoas, alguém poderia argumentar que a maneira mais poderosa de mudar a química cerebral é através da comida. Afinal, é dela que os químicos cerebrais se originam.

Esta lógica deu origem a um novo e excitante campo, o da psiquiatria nutricional, dedicada a compreender como escolhas nutricionais afetam o nosso humor, pensamento e comportamento.

Novos estudos e experiências reais estão revelando esta mensagem empoderadora e cheia de esperança: alimentar o seu cérebro corretamente tem o potencial de prevenir e reverter sintomas de desordens mentais e, em alguns casos, ajudar as pessoas a reduzirem e até eliminarem a necessidade de psicofármacos.

Este abrupto crescimento nos problemas mentais, nas décadas recentes, encontra paralelos intimamente ligados ao padrão das chamadas “doenças da civilização”, associadas à industrialização da dieta humana.

Mesmo que as mensagens de saúde pública culpem a proteína animal e a gordura por isso, a carne não é uma substância nova ou estrangeira: é um alimento completo, altamente nutritivo e muito antigo que está disponível desde tempos desconhecidos.

Mesmo que não saibamos com precisão quanta carne os pré-históricos comiam, sabemos que nenhum ser humano sobrevive sem o consumo de alimentos animais, porque as plantas não fornecem todos os nutrientes essenciais para a vida humana – especialmente a vitamina B12 – e suplementos de B12 não estavam disponíveis até os anos 50.

O que mais bem distingue a chamada dieta ocidental atual de todos os padrões nutritivos que vieram antes disso não é a presença da carne, mas sim a abundância de carboidratos refinados, como açúcar, farinha e óleos refinados (conhecidos como “gorduras vegetais”), tais como soja e girassol. Estas substâncias são encontradas em basicamente todos os alimentos processados e são a verdadeira base das dietas modernas.

Carboidratos refinados e gorduras vegetais podem colocar em risco a saúde física e mental ao contribuírem para inflamação, oxidação, desequilíbrio hormonal e resistência à insulina.

Para sermos claros, a qualidade da nossa dieta não é o único fator que influencia o risco das desordens psiquiátricas. Contudo, como existe evidência científica sólida conectando as escolhas dos nossos alimentos com processos que geram doenças, melhorar a qualidade da nossa dieta faz muito sentido.

Dieta Cetogênica e Low Carb e desordens psiquiátricas

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Transtornos de ansiedade

Transtornos de ansiedade incluem: transtorno de ansiedade generalizada síndrome do pânico, transtorno do estresse pós-traumático, transtorno obsessivo-compulsivo e fobia social.

Mesmo que não haja estudos formais sobre isso, existem evidências anedóticas numerosas e exemplos na minha prática de pessoas que conquistaram um alívio significativo da ansiedade com dieta cetogênica e low carb.

Na minha experiência clínica, a redução da ansiedade é um dos mais comuns benefícios nas dietas de baixo carboidrato. Talvez, porque elas reduzam e estabilizem os hormônios do estresse.

Uma estudante de pós-doutorado em Harvard, de 31 anos, veio até mim pedindo ajuda com seus ataques de pânico, irritabilidade e constante compulsão alimentar (alimentação emocional) e fadiga 2h após as refeições.

Ela tinha muita consciência de sua saúde e esperava não usar medicação. Eu lhe disse que seus sintomas eram provavelmente ligados à sensibilidade a carboidratos e recomendei uma dieta de baixo carboidratos com alimentos integrais. 

Ela mudou a sua dieta disso:

  • Café da manhã: torrada com pasta de amendoim ou Nutella café e leite desnatado
  • Almoço: salada com atum ou queijo e um pedaço de pão
  • Jantar: macarrão com queijo
  • Lanches: banana e iogurte

Para isso:

  • Café da manhã: dois ovos com manteiga e guacamole
  • Almoço: carne e vegetal não amiláceo (sem amido)
  • Jantar: carne e vegetal não amiláceos
  • Lanches: castanhas nozes amêndoas e queijo

Quando lhe perguntei sobre sua nova dieta e sobre como estavam seus sintomas, ela me disse: “eu não sei o que dizer, porque estes sintomas costumavam me incomodar muito, mas eu diria que os sintomas foram reduzidos em algo como 90%.”

Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH)

Há estudos sugerindo que dietas com baixos alergênicos formuladas primordialmente com alimentos integrais podem ajudar muito crianças com déficit de atenção com hiperatividade. Não existem estudos que exploram a relação entre carboidratos refinados e TDAH. Também, não há estudos que testem dietas de baixo carboidratos em crianças e adultos com déficit de atenção. 

Contudo, na minha experiência clínica, a clareza mental é um dos benefícios mais comumente relatados dos seguidores de dietas de baixo carboidrato.

Já vi casos de déficit de atenção severos que responderam a intervenções nutricionais como que descrevo abaixo:

Há muitos anos, conheci uma mulher de 40 anos que apresentava, ao longo da vida, sintomas como procrastinação, atraso constante, baixa motivação, fadiga, distração e desorganização que interferiam significativamente em sua eficiência em casa e no trabalho.

A diagnostiquei com TDAH do tipo desatento e ela começou a tomar adderall (sais de anfetamina). A medicação ajudou muito com seus sintomas, mas trouxe efeitos colaterais perturbadores.

Com o passar dos, anos ela gradualmente melhorou a qualidade da sua dieta, removendo grãos, leguminosas, laticínios e alimentos processados, o que ajudou o seu humor e melhorou a saúde física tremendamente – mas, não fez nada pelo seu sintomas de déficit de atenção.

Quando ela mudou para a dieta cetogênica, seus sintomas começaram a melhorar em apenas alguns dias.

Desde então, ela pôde parar de tomar adderall completamente e alerta que as suas funções melhoraram muito mais em cetose do que com o adderall – só que sem efeitos colaterais.

Doença de Alzheimer

Pesquisas que exploram a conexão entre metabolismo e a maioria das desordens psiquiátricas ainda são incipientes. 

Mas, quando falamos do Mal de Alzheimer, nós temos múltiplas linhas de evidências de alta qualidade afirmando que a resistência à insulina no cérebro não é apenas o fator base do Alzheimer, mas possivelmente a principal causa para o desenvolvimento desta doença devastadora.

A relação entre a resistência à insulina e o Alzheimer é tão forte, que os cientistas agora chamam a doença de diabetes tipo 3.

Uma das formas que a resistência à insulina contribui para a má função cerebral na doença de Alzheimer é restringindo a entrada da insulina no cérebro.

Como a insulina é necessária para que as células cerebrais convertam glicose em energia, a baixa insulina no cérebro pode atrasar este processo de conversão e reduzir a atividade das células cerebrais.

Esta queda no poder cerebral pode começar décadas antes dos sintomas cognitivo se manifestarem – já foi detectada em mulheres jovens, por volta dos 20 anos. Então, nunca é cedo demais para reduzir o risco do Alzheimer. 

Quase nunca é tarde demais. O número pequeno, mas cada vez maior de estudos, demonstra que a dieta cetogênica ou suplementos de corpos cetônicos melhoram o pensamento e a memória de pessoas com Alzheimer até mesmo para aqueles que já manifestam estágios iniciais da doença.

Em um estudo de 2018, uma dieta de baixo carboidratos com suplemento de MCT (que eleva o número de corpos cetônicos) melhorou os escores cognitivos de pessoas com a doença de Alzheimer em fase leve mais do que qualquer medicação existente para Alzheimer.

Esta estratégia nutricional é segura, bem tolerada e pode ser administrada com ajuda de um cuidador.

Transtornos alimentares

Até agora, não temos estudos científicos de dietas de baixo carboidratos para transtornos alimentares. 

Contudo, da minha prática clínica, pessoas com bulimia e compulsão alimentar que trocam para uma dieta de baixo carboidratos frequentemente reduzem os episódios de compulsão. Isso ocorre porque o desejo de comer reduz significativamente.

Como a compulsão ativa o impulso de vomitar, a dieta de baixo carboidrato pode ser muito útil para pessoas com bulimia que querem mudar a sua dieta.

Laticínios, amêndoas, castanhas e nozes também podem disparar alguns comportamentos compulsivos nas pessoas. Então, às vezes, esses alimentos precisam ser eliminados para chegarmos a resultados melhores.

Porém, se você tem uma história de ignorar a fome, deixar de comer, passar por privação, ter pensamentos anoréxicos ou não se sente confortável em comer gorduras, a dieta de baixo carboidratos pode não ser a certa para você.

Quando você reduz os carboidratos dramaticamente, você precisa substituir essas calorias por gorduras saudáveis. Se você não consegue comer gorduras, a dieta de baixo carboidratos pode ser mortal. Especialmente, se você está com baixo peso ou mal nutrido. 

Se você está considerando uma dieta low carb, por favor, procure ajuda para discutir os riscos e os benefícios.

Depressão

Remédios que reduzem inflamação e melhoram a resistência à insulina podem efetivamente tratar sintomas da depressão. Isso sugere que inflamação e resistência à insulina podem ter um papel importante no desenvolvimento de desordens depressivas severas.

Em 2017, o primeiro estudo global de intervenção nutricional para tratar a depressão encontrou que a dieta mediterrânea aliviava sintomas da depressão para algo suportável, comparado com uma dieta típica moderna. Um segundo estudo de uma dieta similar com suplementos de óleo de peixe também notou benefícios.

Estes importantes estudos claramente demonstram que a qualidade da nutrição importa para saúde mental, mas eles não conseguem nos dizer se uma dieta mediterrânea é a melhor para o cérebro. Apenas mostram que ela é melhor do que a dieta padrão.

Enquanto é tentador acreditar que essas dietas reduziram os sintomas da depressão porque elas têm mais azeite de oliva, castanhas e nozes, elas também foram desenhadas para ter muito pouco carboidrato refinado e gorduras vegetais. Mais estudos são necessários para explorar como e por que as diferentes dietas afetam os sintomas da depressão.

Ainda não há estudos conduzidos em seres humanos com dietas de baixo carboidrato e depressão. Na minha prática, há relatos de pessoas reportando melhoria no humor, Isso se repete em relatos nas mídias sociais.

Transtorno bipolar

Esta condição costumava ser chamada de maníaca-depressiva e aparece de diversas formas: transtorno bipolar tipo 1, transtorno bipolar tipo 2 e algumas formas mais leves, que não se encaixam em nenhuma categoria.

Estas desordens são caracterizadas por padrões instáveis de humor que incluem períodos de euforia (mania), como irritabilidade ou ansiedade severa, usualmente alternadas com períodos de depressão.

É interessante perceber que o transtorno bipolar e a epilepsia têm muito em comum, incluindo desequilíbrios similares de neurotransmissores e de eletrólitos.

Na realidade, já que as mesmas medicações são usadas em ambas as desordens, é lógico pensar se a dieta cetogênica, que tem sido usada para tratar a epilepsia por um século, pode ajudar a tratar o transtorno bipolar também.

  • Um estudo de 121 pessoas com transtorno bipolar descobriu que aqueles que têm resistência à insulina ou diabetes tipo 2 enfrentam mais dificuldades do que aqueles que não têm estes problemas. Mesmo que este estudo encontre razões de chances que ultrapassam 2.0, é importante dizer que foi um estudo observacional e que, portanto a evidência ainda é fraca. Pessoas com resistência à insulina ou diabetes tipo 2 teriam mais tendência a desenvolver desordens de humor de ciclagem rápida e crônica, e menos chance de responder à medicação estabilizadora do humor lítio.
  • Neste estudo, duas mulheres com transtorno bipolar tipo 2 reportaram que a dieta cetogênica era superiora do que o estabilizador de humor e até mesmo do que o anticonvulsivo lamotrigina para lidar com os sintomas. Elas também conseguiram parar de tomar qualquer medicação.
  • Em um exemplo da minha prática pessoal, uma mulher de 26 anos com bipolaridade tipo 2, que sofria de bulimia e enxaquecas por muitos anos, adotou uma dieta de baixo carboidrato e sentiu a completa resolução do comportamento dos episódios de vômito, das enxaquecas e dos problemas pré-menstruais. Somado a isso, sua euforia mudou da raiva para felicidade e os suas fases depressivas eram menos intensas. Nós lidamos com os sintomas depressivos que restaram com uma baixa dose de lamotrigina e psicoterapia.

Psicose

Sintomas de psicose não ocorrem apenas em pessoas com esquizofrenia. A psicose também ocorre em muitas condições psiquiátricas, incluindo depressão, transtorno bipolar, uso de substâncias químicas e demência.

Sinais de psicose incluem paranoia, alucinação auditiva (ouvir vozes), alucinação visual (ver coisas que não estão lá), pensamentos e imagens intrusivas e pensamento desorganizado.

É interessante notar que pessoas diagnosticadas com esquizofrenia têm maior tendência a ter problemas de regulação da glicose e resistência à insulina, mesmo que elas nunca tenham tomado medicações psicóticas (conhecidas por aumentar o risco para estas questões).

Não temos informações suficientes ainda para saber se a resistência à insulina tem um fator causal na esquizofrenia. Apenas sabemos que as duas condições andam juntas frequentemente.

Muitos relatórios publicados documentam que dietas de baixo carboidrato podem reduzir dramaticamente os sintomas de psicose. 

Talvez, o caso mais bem documentado tenha sido o publicado pelo Dr. Eric westman e Dr. Bryan Kraft e conta a história de uma mulher de 70 anos que sofria de alucinações visuais e auditivas desde os 7 anos. 

Em 8 dias, após mudar para uma dieta de baixo carboidrato, os seu sintomas melhoraram muito. Ela ficou livre das alucinações enquanto se alimentava desta forma por um ano inteiro. 

Transtorno do espectro autista (autismo, TEA)

Dois pequenos estudos de seis meses e um caso publicado demonstraram que a dieta cetogênica pode ajudar no sintomas do autismo em crianças.

Em um desses estudos, conduzido com 23 crianças que permaneceram na dieta, 18 delas (60%) tiveram algum tipo de melhoria, sendo que duas crianças melhoraram o suficiente para entrar numa escola tradicional.

Para compreender o poder da Dieta Cetogênica no autismo (e diversas outras doenças, como diabetes, câncer etc), não deixe de assistir ao documentário A pílula mágica.

(Via Diet Doctor)

 

 

 

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