Artigos

Dominic D’Agostino: corpos cetônicos para desordens neurológicas e metabólicas

diferença cetogênica atkins modificada benefícios desordens neurológicas diabetes cancer demencia epilepsia bipolaridade alzheimer

Professor da Universidade da Florida, o Dr. Dominic D’Agostino dispensa introduções no universo da Dieta Cetogênica. Ph.D em Farmacologia Molecular, ele é um dos mais respeitados pesquisadores dos corpos cetônicos. D’Agostino investiga terapias metabólicas que envolvem a cetose terapêutica e como este estado afeta uma infinidade de patologias neurológicas – que vão da Esclerose Lateral Amiotrófica, perda muscular, câncer e epilepsia.

Em entrevista à Dr. Rhonda Patrick, Ph.D em nutrição para saúde cerebral e envelhecimento, D’Agostino discutirá os mais relevantes temas da cetose. A entrevista é fundamental para você compreender o potencial do que está fazendo, para se comprometer com uma Dieta Cetogênica bem-formulada, que garanta uma elevação de corpos cetônicos no sangue (o corpo cetônico chamado BHB).

Confira abaixo os principais pontos desta entrevista. Você verá que eu dividi a entrevista em tópicos para facilitar a navegação. Ainda, inseri, em itálico, algumas notas importantes durante o conteúdo. No mais, deixo vocês com Patrick e D’Agostino.

A próxima entrevista será com o psiquiatra e pesquisador de Harvard, Chris Palmer. Palmer é o principal nome para a utilização da mesma dieta cetogênica de D’Agostino (terapêutica, clássica, como quiserem chamar), mas voltado a desordens psiquiátricas. Então, me siga nas redes e inscreva-se no site para receber os novos conteúdos!

Entrevista Dominic D’Agostino: Dieta Cetogênica e corpos cetônicos para tratar desordens neurológicas e metabólicas

diferença cetogênica atkins modificada benefícios desordens neurológicas diabetes cancer demencia

Rhonda Patrick: Quais são os principais pontos das suas pesquisas atualmente?

D’Agostino: Temos trabalhado com suplementação de corpos cetônicos. A ideia é mimetizar os efeitos terapêuticos e de performance da Dieta Cetogênica.

A cetose atingida através da alimentação tem efeitos terapêuticos para uma variedade de desordens neurológicas.

Você pode argumentar que basicamente todas as doenças neurológicas são, de alguma forma, ligadas à desregulação metabólica. Queremos entender como a cetose nutricional preserva e estabiliza o metabolismo da energia do cérebro.

O que é a cetose nutricional?

Rhonda Patrick: Você disse que, no coração das doenças neurológicas, há uma desregulação metabólica. Quando falamos de cetose nutricional, soa bastante amplo. O que é a cetose nutricional?

D’Agostino: A cetose nutricional é atingir e manter um nível de corpos cetônicos no sangue, confirmados através de medição no sangue. Os níveis precisam estar acima de 0,5mmol/l no mínimo.

Idealmente, você deve estar entre 1.0 e 3.0 mmol/l. Estou falando de corpos cetônicos no sangue, que é o padrão de ouro de medição. Também é importante medir a glicose e, talvez, a insulina. A supressão da insulina leva à cetogenicidade do fígado, a habilidade do organismo de produzir corpos cetônicos.

 

dieta cetogênica benefícios desordens neurológicas alzheimer epilepsia bipolaridade parkinson esclerose corpos cetônicos medidor

 

Isso tem implicações terapêuticas. Minha definição de cetose nutricional é elevação de corpos cetônicos no sangue. A dificuldade de atingir isso é que os protocolos são similares para todos, mas cada pessoa responde de uma forma diferente dependendo de seu histórico.

Se você tiver um indivíduo obeso com diabetes tipo 2, será diferente de um atleta. Mulheres são diferentes de homens. Definir a cetose é fácil, implementá-la e fazer a pessoa se comprometer com isso e ter uma habilidade de manter a dieta cetogênica é a coisa mais difícil de fazer.

Sabemos que corpos cetônicos são mais do que metabólitos que o cérebro pode usar. O BHB, especialmente, é uma molécula sinalizadora poderosa.

Diferenças nas Dietas Cetogênicas [Atkins Modificada e Keto Modificada]

Rhonda Patrick: Estou interessada no BHB por ele ser capaz de mudar a sinalização celular no cérebro, os genes que sinalizam como lidamos com o estresse e com a longevidade, como o FOXO3. Como a pessoa pode atingir esses números e benefícios na Cetogênica?

[FOXO3 é um regulador mestre de muitos genes envolvidos com a reparação do DNA, disfunções proteicas, antioxidantes, anti-inflamatórios etc. Seres humanos com uma versão mais ativa do FOXO3 têm uma chance elevada em 2.7 de ultrapassarem os 100 anos de idade]

D’Agostino: É importante entender o que foi desenvolvido na Cetogênica Clássica e como ela evoluiu nas últimas décadas, com o médico do Johns Hopkins, Dr. Eric Kossoff, que desenvolveu a chamada Dieta Atkins Modificada.

[A Dieta Atkins Modificada é uma versão da Dieta Cetogênica que permite um maior consumo de proteínas. Tem sido usada com sucesso no tratamento de epilepsia.]

A Cetogênica Clássica trabalha com proporções de macros de 4:1 ou 3:1. O número 4 significa a quantidade de gordura e o número 1 significa a soma de proteínas+carboidratos. É uma dieta que restringe a proteína.

A Dieta Cetogênica não é uma dieta de alta proteína, é de proteína moderada ou baixa. Na comunidade fitness, é comum vermos pessoas que apenas reduzem carboidratos e mantêm alta proteína e gordura moderada.

Mas, a Cetogênica clássica, usada como tratamento de epilepsia era de 85% a 90% gordura e 10% de proteína. 5% de carboidratos. A principal forma de gordura era laticínio.

Hoje, sabemos que o uso de laticínios pode ser prejudicial em algumas pessoas, especialmente as proteínas dos laticínios, mas também a própria gordura do laticínio.

Também, sabemos que o que importa não é apenas a relação de macronutrientes para formular a Dieta Cetogênica. Os tipos de gorduras importam, os tipos de proteínas, os tipos e qualidades dos carboidratos, mais ainda quando falamos da saúde da microbiota.

Em termos gerais, você deve fazer sua Dieta com um profissional experiente, que trabalhou com um número interessante de pessoas. Eu realmente enfatizo a importância da experiência, porque não há substituto para a experiência.

Você pode saber toda a bioquímica por trás, todos os caminhos da cetose nutricional, mas o profissional pode alterar e fazer as modificações individuais para suas necessidades específicas.

Para mim, no meu caso pessoal, laticínios e nuts são um problema. Tive que eliminá-los. Mas, eu sigo uma Cetogênica Modificada. É muito similar à Atkins Modificada usada no Johns Hopkins por Eric Kossoff.

O que Kossoff tem mostrado em pesquisas é que a Atkins Modificada tem muito do potencial terapêutico da Cetogênica Clássica.

diferença cetogênica atkins modificada benefícios desordens neurológicas diabetes

A diferença entre ambas as dietas é que a Atkins Modificada tem no máximo 65% a 70% de gordura. E entre 20% a 30% de proteínas. Ambas têm muito baixos carboidratos, algo como 5% ou 10%.

A Atkins Modificada é mais liberal com proteínas. Na Atkins Modificada, há o uso dos MCTs [TCMs – triglicerídeos de cadeia média]. Com estas mudanças, eu mantenho uma cetose moderada. Com esta dieta, os pacientes têm benefícios para uma variedade de desordens.

A dieta também se torna mais acessível. As pessoas estão cientes dos benefícios da cetose. Mas, a principal dificuldade é manter a dieta.

Benefícios dos vegetais e colesterol

Rhonda Patrick: Eu fico preocupada com a microbiota na Cetogênica. Fibras são muito importantes para mim.

D’Agostino: Eu nunca tive uma saúde melhor do que em cetose. Como eu disse, eu faço uma Atkins Modificada, que tem uma quantidade mais liberal de vegetais. Os benefícios de incluir vegetais é que eles reduzem a velocidade da digestão das proteínas e isso ajuda a reduzir o pico de insulina que você pode ter com o consumo de proteínas. Ainda, os vegetais carregam a gordura.

No caso do colesterol, quando falamos de partículas de LDL elevadas, elevadas imensamente, este fenômeno foi estudado apenas em ambientes cuja dieta de alta gordura também continha açúcar. Então, não compreendemos as mudanças e o perfil lipídico na Cetogênica. Especificamente, o LDL(p), não o entendemos no contexto de um organismo adaptado à cetose.

[LDL(p), o tamanho das partículas do LDL, é conhecido como um fator preditivo mais eficiente para doenças cardíacas do que apenas o número do LDL total.

Há um movimento na comunidade científica para fatiar o exame de LDL em diferentes tamanhos. Assim como, nos anos 1980, havia apenas “colesterol”, até chegarmos à separação entre HDL e LDL. Por enquanto, o exame que consegue dar uma ideia do tamanho da partícula de LDL é o ApoB, já que cada partícula de LDL possui uma molécula de ApoB.

O colesterol, tanto LDL quanto HDL, é sim significativamente elevado em cetose terapêutica. O LDL hiperelevado é uma das maiores preocupações dos pais de crianças que usam a cetose para tratamento de epilepsia. Novos estudos da MacKenzie Cervenka, responsável pela aplicação de Cetogênica para epilepsia em adultos no Johns Hopkins, apontam que o tempo de adaptação do pico de LDL varia entre 01 e 02 anos.]

Benefícios da Dieta Cetogênica [cetose terapêutica]

Rhonda Patrick: O que é um organismo adaptado à cetose?

D’Agostino: É um termo cunhado por Jeff Volek e Stephen Phinney [maiores pesquisadores de Cetogênica para Diabetes, na Virta Health].  É um processo fisiológico, em que seu corpo se adapta à utilização de gorduras e de corpos cetônicos como combustível. Bioquimicamente e fisiologicamente, seu organismo mudou o metabolismo e não utiliza mais a glicose como combustível preferencial.

Quando isso ocorre, você tem uma elevação de corpos cetônicos e, com o passar do tempo, você tem uma regulação dos mecanismos de transporte, um aumento dramático da capacidade celular de metabolizar e utilizar corpos cetônicos. Isso ocorre através da manutenção da cetose, que aumenta a oxidação [queima] de gordura com o tempo.

Quando falamos de cetoadaptação, há estudos que mostram que nossa fisiologia metabólica muda profundamente. Nós basicamente queimamos o que comemos e há benefícios metabólicos consideráveis que acontecem.

Alguns benefícios de um corpo adaptado à cetose são a biogênese mitocondrial [criação de mitocôndrias, responsáveis pela energia do organismo], redução de espécies reativas de oxigênio, redução de inflamação, redução de citocinas inflamatórias específicas, incluindo aquelas associadas a doenças crônicas ligadas ao envelhecimento.

Ainda, a ubiquinona [coenzima Q10] é oxidada através do metabolismo adaptado. Então, você tem menos capacidade daquele elétron reagir com o oxigênio nos caminhos metabólicos. Você produz menos superóxido, que é um precursor das espécies reativas de oxigênio.

Isso foi demonstrado em bons estudos, incluindo o modelo cardíaco. E foi visto que você passa a ter uma elevada eficiência hidráulica do coração na presença de corpos cetônicos. Com a presença de oxigênio, você passa a produzir mais ATP [Adenosina Trifosfato, responsável por transportar e armazenar energia].

Também, a eficiência das mitocôndrias é elevada. Você passa a ter um potencial maior das membranas, de síntese de ATP e isso energiza a mitocôndria. Isso é esperado de um combustível que é superior do ponto de vista energético. Sua capacidade de gerar ATP é maior.

Quando isso ocorre, a eficiência metabólica da célula faz com que você precise de menos oxigênio para produzir ATP e isso significa menos espécies reativas de oxigênio.

Claro, se você se afasta da glicólise [quebra da glicose para liberação de energia] e se aproxima da fosforilação oxidativa [geração de energia através da queima de nutrientes para geração de ATP], seja no contexto do câncer ou de qualquer tecido, você está forçando o corpo à regulação das mitocôndrias. Isso é inicialmente estressante, mas eleva a quantidade e a eficiência das mitocôndrias.

No contexto do envelhecimento, traumas cerebrais e patologias, além de hipoglicemia ou algum estresse, creio que o cérebro prefira usar corpos cetônicos como combustível, por muitos motivos.

Há diversas causas que geram uma incapacidade do cérebro de gerar energia através da glicose. Isso pode ocorrer por uma internalização do GLUT3, que ajuda no transporte da glicose, ligado ao Mal de Alzheimer. Pode haver algumas enzimas que estão deficientes, como o piruvato desidrogenase.

Enfim, a pergunta que estamos fazendo é a contribuição dos corpos cetônicos para o cérebro. Diria que a flexibilidade metabólica do cérebro de utilizar corpos cetônicos precisa ser explorada pela ciência, porque isso altera a neurofarmacologia do cérebro, os neurotransmissores do cérebro.

Você tem, por exemplo, mais GABA. A proporção de GABA para Glutamato é transformada em favor para mais GABA.

Leia o estudo The neuropharmacology of the Ketogenic Diet, por Adam L. Hartman

Cetogênica para epilepsia, autismo, parkinson, bipolaridade, esquizofrenia, depressão e transtornos de ansiedade

[A relação entre Gaba e Glutamato é um dos fatores mais promissores para a compreensão de desequilíbrios cerebrais. GABA reduz a excitação cerebral gerada por Glutamato excessivo. Reequilibrar a proporção tem se mostrado fundamental nestas desordens]

Rhonda Patrick: A mudança da relação GABA/Glutamato ocorre em pessoas saudáveis também?

D’Agostino: Sim, e há razões diferentes para isso. Há o Glutamato descarboxilase…

Rhonda Patrick: É por isso que a Dieta Cetogênica ajuda na epilepsia?

D’Agostino: Também. Há mais algumas dezenas de motivos se você observar os caminhos de sinalização, mas a elevação da GABA é um fator-chave no processo. Precisamos de glutamato para produzir GABA, mas, em cetose, há uma preferência do organismo em produzir mais GABA a partir deste glutamato. Isso tem um efeito estabilizador nas membranas celulares e na atividade dos neurônios de forma geral.

Como alimentar seu cérebro diretamente [cetose, adenosina e MCT]

Rhonda Patrick: Corpos cetônicos cruzam a barreira cerebral?

[Barreira hematoencefálica, uma barreira permeável com alta capacidade seletiva, que separa o sangue dos fluídos extracelulares do cérebro. No caso dos corpos cetônicos para desordens neurológicas, de nada adiantaria ter corpos cetônicos elevados se eles não fossem capazes de cruzar a barreira e abastecer o cérebro.]

D’Agostino: Fizemos alguns estudos e, quando observamos os corpos cetônicos nos tecidos cerebrais e níveis de corpos cetônicos no sangue, encontramos forte correlação entre os números.

Fizemos uma dieta com alto consumo de MCTs. MCTs são capazes de cruzar a barreira cerebral – triglicerídeos de cadeia longa geralmente não cruzam e MCTs cruzam. Encontramos altos níveis de MCTs nos cérebros dos animais. Então, eles são sim uma forma de combustível para o cérebro.

Corpos cetônicos também são muito altos no cérebro e, para compreender isso, você precisa capturar o tecido cerebral velozmente e congelá-lo para análise, porque o cérebro utiliza corpos cetônicos como combustível em tempo real. É um estudo difícil de executar.

Minha aluna apresentou a tese de pós-doutorado dela recentemente, demonstrando como corpos cetônicos podem aumentar o fluxo sanguíneo. Estudos anteriores também já haviam comprovado que corpos cetônicos podem elevar o fluxo sanguíneo de 30% a 40%. Quando você tem uma demência vascular ou traumas cerebrais em geral, estar em cetose elevada pode ser uma chave.

Também observamos as taxas de adenosina, significativamente elevadas em cetose. Adenosina nos relaxa. Quando tomamos café, a adenosina é uma antagonista. Na cetose, há altos níveis de ATP sendo usados e parece que esta é a causa da elevação da adenosina. Precisamos entender o mecanismo desta elevação, mas a adenosina também é uma excelente vaso dilatadora e isso pode elevar a perfusão de tecidos periféricos.

[É bem estabelecida a relação da adenosina na supressão de crises epilépticas com a cetogênica e evidências recentes sugerem que a cetose é capaz de regular a homeostase da adenosina no cérebro. A regulação da adenosina na cetogênica tem sido estudada por Susan Masino, Ph.D, como positiva para patologias relacionadas à excitação do cérebro – caso da epilepsia, bipolaridade e esquizofrenia.]

Dieta Cetogênica no tratamento do câncer

Rhonda Patrick: Como a cetose afeta a barreira cerebral?

D’Agostino: Sabemos que jejum e Dieta Cetogênica aumentam a permeabilidade da barreira. As coisas cruzam a barreira com mais velocidade.

Se você está fazendo quimioterapia ou tomando alguma droga que precisa cruzar a barreira, se a sua barreira estiver prejudicada de alguma forma, você conseguirá melhorar esta comunicação mais rapidamente se estiver em cetose ou em jejum. Talvez, haja menos coisas no sangue, menos competição. Você toma a droga e consegue um transporte mais rápido. Existem múltiplas linhas de evidência mostrando que a Dieta Cetogênica leva a um transporte mais eficiente.

Quando falamos sobre tornar o cérebro permeável, isso soa como algo ruim. Mas, em geral, a cetose terapêutica reduz as inflamações no cérebro. Isso é algo muito relevante ao universo da epilepsia. Há uma técnica de pet scan que nos permite avaliar a inflamação cerebral e sabemos que isso pode ser uma ótima maneira de prever quando alguém terá uma crise epiléptica.

Fizemos experimentos com ésteres de cetonas, que são a mais poderosa forma de suplementação de corpos cetônicos, e isso levou a uma prevenção da toxicidade do Sistema Nervoso Central, um aumento de quase 500% na prevenção. Isso não pode ser atingido com jejum ou com medicamentos. Então, quando falamos de melhorar e preservar o metabolismo da energia no cérebro, em contextos de grande estresse oxidativo, fomos capazes de controlar a questão.

Em nossos estudos com animais e câncer metastático, em um modelo desenvolvido por Thomas Seyfried, foram surpreendentes as taxas de sobrevivência que atingimos com suplementação corpos cetônicos, mesmo em dietas de alto carboidrato.

No câncer metastático, as células são altamente glicolíticas, elas preferem usar glicose e glutamina como fonte de energia. Os animais estavam comendo alto carboidrato e tomando suplementos de corpos cetônicos. Mesmo assim, isso reduziu o crescimento do tumor e sua proliferação.

Acreditamos que os corpos cetônicos estejam alterando o metabolismo da glicose. Houve sim apoptose [morte celular programada] no tumor que já estava lá, mas, em termos gerais, houve redução no crescimento do tumor e aumento de 50% a 60% do tempo de vida do indivíduo.

Os animais com suplementação de corpos cetônicos também comiam menos, e isso é interessante para quem busca emagrecimento, porque quando você envia energia ao cérebro na forma de corpos cetônicos, isso gera um efeito de saciedade. Fecha o efeito da hipoglicemia que te leva a comer em excesso. Corpos cetônicos impactam os centros de saciedade do cérebro.

Não se trata de não querer comer, mas sim de ter controle sobre o apetite.

Rhonda Patrick: Fiquei pensando sobre como o ácido láurico (C12) suprime a grelina no aparelho digestivo. A grelina é um hormônio da fome… Mas, prossiga. 

D’Agostino: Bem, os dados que alcançamos com suplementação de ésteres foram muito similares a quem segue a Dieta Cetogênica de fato. Pensamos que podia ser devido à restrição calórica, já que restrição alimentar reduz o crescimento do tumor.

Mas, os animais reduziram a ingestão de alimentos em algo como meros 10%. Então, fizemos um experimento com restrição calórica e o que vimos foi que os corpos cetônicos eram mais eficazes do que a restrição calórica.

Sabemos que corpos cetônicos, sem sombra de dúvida, têm efeitos anticancerigenos. Isso pode ser devido à capacidade de alterar a expressão genética. Também, devido à inibição da glicólise e incontáveis outros caminhos associados com o crescimento do câncer.

Ainda, há uma questão na comunidade científica sobre as mitocôndrias. Estas células têm mitocôndrias deficientes ou há apenas menos mitocôndrias? Creio que ambos. Não apenas em células cancerígenas.

Se você está bebendo álcool e bombardeando o fígado com estresse oxidativo você está prejudicando suas mitocôndrias e, ao longo do tempo, você induzirá o Efeito Warburg, a capacidade das células de manter a energia, você ativará oncogenes [genes relacionados com o aparecimento e crescimento de tumores], e outros caminhos que fazem uma célula normal se transformar em uma célula cancerígena. Você danifica as células de variadas formas, com quimioterapia, radiação, inflamação crônica. Tudo isso danifica a respiração celular.

Gliconeogênese: como fica o corpo em cetose, com glicose reduzida?

Rhonda Patrick: Quando você está em cetose nutricional ou cetose induzida por jejum, você ainda precisa de glicose. Hemácias não têm mitocôndrias, então fabricamos glicose através da gliconeogênese. Se você está em cetose, o fígado usa glicerol ou lactato para produzir glicose? Esta glicose vai para os glóbulos vermelhos?

D’Agostino: Se você estiver restringindo calorias, você pode ficar com anemia ou prejudicar seu sistema imunológico, que é dependente, de certa forma, de glicose e glutamina. Sim, você usa lactato e glicerol, mas também aminoácidos, do tecido muscular estriado, que está constantemente sendo quebrado, especialmente em atletas.

Então, as taxas de glicose através da gliconeogênese varia de pessoa para pessoa, mas a glicose sempre estará lá. O corpo possui mecanismos poderosos de homeostase. O que muda mesmo é a insulina.

Já vi exames de sangue demais e, em muitos casos, a insulina e o IGF-1 [Fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1] ficam abaixo da taxa considerada normal. Então, a sinalização da insulina, todos os caminhos ligados à insulina serão suprimidos.

Isso é fundamental quando falamos de câncer e também do metabolismo dos músculos. Corpos cetônicos compensam a baixa insulina. Corpos cetônicos são anti-catabólicos para o protein sparing [Protein sparing ou amino acid sparing – “poupança de proteína”: processo através do qual o corpo gera energia de outras fontes, que não proteína].

Então, se você está em cetose, você está protegendo seus aminoácidos e tecidos musculares de serem quebrados. Há evidências de que você está inibindo enzimas proteolíticas que, se você não estivesse em cetose, estariam comendo seus tecidos musculares. Ou seja, corpos cetônicos são anti-catabólicos.

A ideia é seguir usando a gordura como combustível. Se não, se a gordura não for suficiente, você se tornará muito mais catabólico. É um caminho elegante do organismo esta distribuição, garantir que as gorduras estão indo para as mitocôndrias e a glicose para as hemácias. Também, há um número de neurotransmissores e hormônios que precisam de glicose.

[Catabolismo: conjunto de caminhos metabólicos que quebram as moléculas em partes menores para que sejam oxidadas e utilizadas como energia ou utilizadas em outras reações anabólicas, de construção]

Por hoje é isso, pessoal. 

Apoie o Revolução Keto

Faça sua doação para expandir
a Dieta Cetogênica no Brasil.

Dominic D`Agostino pode e deve ser visto frequentemente nas lives promovidas pelo Metabolic Health Summit, um dos seminários mais imperdíveis no mundo.

Receba notificações por email
Notificações de
guest
10 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments
CAROLINA SOUSA FREITAS
CAROLINA SOUSA FREITAS
9 meses atrás

Apesar de leiga na área de saúde e fisiologia do corpo humano, ter lido bastante coisas na área para entender a dieta me ajudou a pegar algumas coisas na entrevista. Muito boa! Parabéns pelo material de alta qualidade científica.

Pedro Luis Schütz
Pedro Luis Schütz
9 meses atrás

Bom dia. SENSACIONAL a entrevista. Tenho um blog onde coloco algumas coisas sobre estilo de vida, boa nutrição, e gostaria de colocar esta entrevista lá. Então, se tu permitir, ajudo a divulgar um pouquinho este maravilhoso assunto. Grato.
http://cienciaschutz.blogspot.com/

Pedro Luis Schütz
Pedro Luis Schütz
Reply to  Juliana Szabluk
9 meses atrás

Sem dúvida. Te agradeço muito! Sempre te acompanhando, e aprendendo muuuuuito. Abraço querida!

CECILIA HERMANN
9 meses atrás

Ju, sensacional esse artigo, muito obrigada!
Curiosidade: com qual das 2 dietas você prefere trabalhar: Atkins modificada ou cetogênica clássica?
beijo!

Carmen Hidalgo
Carmen Hidalgo
9 meses atrás

Muito interessante! A cetose nos protege e nos blinda de muitos problemas ! Sensacional!

Mariane Fonseca
Mariane Fonseca
9 meses atrás

Trabalho maravilhoso! Obrigada por divulgar!

Cris
9 meses atrás

Grata pelo conteúdo maravilhoso!
Cheguei até aqui através do blog do Dr. Pedro Schutz